quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Baudelaire e os Paraísos Artificiais

 Por Luciene Félix
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-Romana da ESDC
mitologia@esdc.com.br

Os etéreos “néctar e a ambrosia” eram bebida e alimento dos deuses.
Ao mortal que ousasse os ingerir era destinada a glória dos olímpicos
ou, em desmedida, a bestialidade humana.
O uso freqüente de substâncias que alteram a percepção consiste num perigoso exercício que aniquila a liberdade, tão cara a dignidade humana. Traremos as impressões de um espírito refinado e singular, que fez uso dessas emanações vegetais nos legando, numa lúcida experiência, a análise dos efeitos misteriosos e dos inevitáveis riscos que resultam de seu uso prolongado. O poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), famoso por sua magnífica Obra “As flores do Mal”, reunindo-se com os amigos no luxuoso Hotel Pimodan, desfrutou do haxixe (cânhamo indiano, cannabis), do ópio e do vinho.
As propriedades excitantes do cânhamo eram bem conhecidas do Antigo Egito e seu uso era muito difundido, sob diferentes nomes, na Índia, na Argélia e na Arábia Felix.
Em “Paraísos Artificiais”, o poeta relatará sua aventura sem, no entanto, deixar de falar sobre os “esforços sobre-humanos de vontade que lhe foi necessário empregar para escapar à danação a qual ele, imprudentemente, se havia devotado”.
Baudelaire considera que é mais importante conhecer a ação do veneno sobre a parte espiritual do homem: “Se naturezas grosseiras e embrutecidas pelo trabalho diário e sem encanto (refere-se a “embriaguez mais repugnante dos suburbanos que, com o cérebro carregado de fogo e glória, rolam ridiculamente nos lixos da rua”) encontram no ópio grande consolo qual não será então o seu efeito num espírito sutil e letrado, numa imaginação ardente e cultivada?”
A atmosfera que permeia a análise do sensível poeta não tem absolutamente nada em comum com o degradante ambiente ao qual estão expostos nossos jovens abandonados e desorientados, tanto pelas famílias quanto pelo Estado. Só para termos uma idéia da diferença dessas realidades, recomenda o aristocrata: “... submeter-se à sua ação apenas em ambientes ou circunstâncias favoráveis. Sendo toda alegria e todo bem-estar superabundantes, toda dor e toda angústia são imensamente profundas. Não se submeta a uma experiência como esta se tiver qualquer assunto desagradável a tratar, se seu espírito se encontrar entediado, se você tiver uma conta a pagar. Tenha (...) alguns cúmplices cujo talento intelectual se aproxime do seu. Suponho que você teve a precaução de escolher bem o seu momento para esta expedição aventurosa. Você não tem deveres a cumprir que exijam a pontualidade e a exatidão; nenhuma tristeza de família; nenhuma dor de amor. É preciso ter cuidado. Esta infelicidade (...), esta lembrança de um dever que reclama sua vontade, sua atenção a um momento determinado envenenarão seu prazer. A inquietação será transformada em angústia; a tristeza, em tortura. Se observadas todas estas condições preliminares, o tempo estiver bom, se você estiver em um ambiente favorável, como uma paisagem pitoresca ou um apartamento poeticamente decorado se, além disso, você puder contar com um pouco de música, então tudo é para o melhor”.
Ele descreve minuciosamente os sintomas de todas as fases pelas quais passam os usuários, desde os iniciantes aos veteranos: “As palavras mais simples, as idéias mais triviais tomam uma fisionomia nova e estranha; Semelhanças e aproximações incongruentes, impossíveis de serem percebidas, jogos de palavras intermináveis, tentativas de comicidade jorram continuamente de seu cérebro. O demônio o invadiu; é inútil resistir (...). De vez em quando, você ri de si mesmo, de sua ingenuidade e de sua loucura, e seus companheiros, se você os tem, riem igualmente de seu estado e do deles; mas, como eles não têm malícia, você não tem rancores”.
O adepto tem seus nervos abrandados, torna-se apático e é tomado por uma benevolência preguiçosa. O desejo é de imobilidade absoluta. Empreende esforços sobre-humanos para parecer igual aos outros. A percepção do tempo se altera completamente pela múltiplas sensações corpóreas e de idéias. Quanto a apatia que o invade e paralisa, o poeta atesta: “Horrível situação! Sentir o espírito fervilhar de idéias, e não mais poder atravessar a ponte que separa os campos imaginários do devaneio das colheitas positivas da ação! (...) um bravo guerreiro, insultado no que ele tem de mais caro e fascinado por uma fatalidade que lhe ordena que fique na cama, onde se consome numa raiva imponente!”
Diversas substâncias que hoje enquadraríamos como sendo “psicotrópicas” foram usadas desde os primórdios para fins religiosos ou terapêuticos (fármacos). Diz-se que as pitonisas, sacerdotisas do Templo de Apolo, em Delfos, as inalavam para conectarem-se mais facilmente com o divino. Às parturientes também eram administradas, a fim de aliviar suas dores. O fato é que Dioniso (Bacco) está entre nós há muito tempo. E hajam aspas! É Charles Baudelaire quem escreve: “Existe um deus misterioso nas fibras da videira. Como são grandes os espetáculos do vinho, iluminados pelo sol interior! Como é verdadeira e abrasadora esta segunda juventude que o homem dele retira! Mas como são, também, perigosas suas volúpias fulminantes e seus encantamentos enervantes. E, no entanto, digam, do fundo da alma e da consciência, juízes, legisladores, aristocratas, todos vocês a quem a felicidade torna doces, a quem a fortuna torna a virtude e a saúde fáceis, digam quem de vocês terá a coragem impiedosa de condenar o homem que bebe o gênio?”
Atento, chama a atenção para o fato de que “há bêbados perversos; são pessoas naturalmente perversas. O homem mau torna-se execrável, assim como o bom torna-se excelente.” E indaga: “Não é razoável pensar que as pessoas que nunca bebem vinho, ingênuas ou sistemáticas, são imbecis ou hipócritas; imbecis, isto é, homens que não conhecem nem a humanidade nem a natureza; hipócritas, isto é, comilões reprimidos, impostores da sobriedade, que bebem escondidos e têm algum vício oculto? Um homem que só bebe água tem um segredo a esconder de seus semelhantes”.
A análise de Baudelaire não tangencia o universo do usuário esporádico, daqueles que tornaram sagrado o profano hábito do cálice de vinho, da cerveja ou do whisky após o expediente ou mesmo do socializante e hilariante “baseadinho” ao pôr-do-sol. Estes, não se queimam, se bronzeiam. Mas o descontrolado habituée “irá apreciar os frutos apodrecidos de sua escravidão: (...) Todos os hábitos se transformam logo em necessidade. Aquele que puder recorrer a um veneno para pensar, em breve não poderá mais pensar sem veneno. É possível supor o terrível destino de um homem cuja imaginação paralisada não soubesse mais funcionar sem o recurso do haxixe ou do ópio?”
Salienta que o haxixe não produz em todos os homens os efeitos que descreve, mas que se ateve aos espíritos artísticos e filosóficos. Que há temperamentos nos quais se desenvolvem apenas uma loucura tumultuada, danças e gargalhadas. Segundo ele, essas pessoas tem um haxixe “muito material” e essas personalidades provocam escândalo: “Vi uma vez um magistrado respeitável, um homem honrado, como dizem de si próprios os aristocratas, um desses homens cuja gravidade artificial impõe-se sempre, no momento em que o haxixe o invadiu, pôr-se bruscamente a dançar um can-can dos mais indecentes. Revelou-se o monstro interior e verdadeiro. Este homem que julgava a ação de seus semelhantes, este togado havia aprendido can-can em segredo. O desenvolvimento do espírito poético, nunca será encontrado no haxixe destas pessoas”.
Como é a vontade, o órgão mais precioso que é “atacado” (sonhar e não realizar, não é nada), o poeta afirma conhecer bem a natureza humana para saber que um homem que pode, através de um atalho, “alcançar instantaneamente todos os bens do céu e da terra, não ganharia jamais a milésima parte destes bens pelo trabalho”. Hesiódico atesta: “É preciso, antes de tudo, viver e trabalhar”.
Baudelaire alerta que um Estado racional jamais poderia subsistir com o uso do haxixe: “Este não produz nem guerreiros nem cidadãos. Na verdade, o haxixe é proibido ao homem sob pena de degradação e morte intelectual, de transformar as condições primordiais de sua existência e romper o equilíbrio de suas faculdades com o meio. Se existisse um governo interessado em corromper os seus governados, bastaria encorajar o uso do haxixe. É possível imaginar um Estado onde todos os cidadãos se embriagassem de haxixe? Que cidadãos! Que guerreiros! Que legisladores!”. Hipócrita, omisso e perverso, ao se esquivar de discutir os inevitáveis “Paraísos Artificiais”, nosso Estado apresenta-se conivente aos “Infernos Reais”.
Saiba mais:
BAUDELAIRE, Charles. Paraísos Artificiais – O haxixe, o ópio e o vinho. Ed. L&PM Pocket (1998) São Paulo, SP.
RIBEIRO, Renato Janine (Titular de Filosofia Ética e Política da USP). Redução de danos. em: http://www.renatojanine.pro.br/Etica/reducao.html
FELIX, Luciene. "Origens da Religião e Pólis Grega" - Vídeo. www.esdc.com.br em "Conhecimento Sem Fronteiras". São Paulo, 2007.

Juventude 2010


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

oasis

Stop Crying Your Heart Out

Hold on!
Hold on!
Don't be scared
You'll never change what's been and gone
May your smile (May your smile)
Shine on (Shine on)
Don't be scared (Don't be scared)
Your destiny may keep you warm
'Cause all of the stars
Are fading away
Just try not to worry
You'll see them some day
Take what you need
And be on your way
And stop crying your heart out
Get up (Get up)
Come on (Come on)
Why you scared? (I'm not scared)
You'll never change what's been and gone
'Cause all of the stars
Are fading away
Just try not to worry
You'll see them some day
Take what you need
And be on your way
And stop crying your heart out
'Cause all of the stars
Are fading away
Just try not to worry
You'll see them some day
Just take what you need
And be on your way
And stop crying your heart out
Where all us stars
We're fading away
Just try not to worry
You'll see us some day
Just take what you need
And be on your way
And stop crying your heart out
Stop crying your heart out

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Simplesmente;Amor


O amor
não é apenas a intensidade dos nossos sentimentos
e sim nossas ações; São importantes.
Pensar no amor como algo vivo e lúcido
como uma planta
que precisa de nutrição e cuidados
para o simples desenvolver
pois bem, uma planta sem nutrição
enfraquece e morre.
Não, não é com dizem
ele não surge do nada
Sim. Uma causa. Talvez

Priscila F


"Se eu falar em línguas de homens e de anjos, mas não tiver amor, tenho-me tornado um pedaço de latão que ressoa ou um címbalo que retine.
E se eu tiver o dom de profetizar e estiver familiarizado com todos os segredos sagrados e com todo o conhecimento, e se eu tiver toda a fé, de modo a transplantar montanhas, mas não tiver amor, nada sou.
E se eu der todos os meus bens para alimentar os outros, e se eu entregar o meu corpo, para jactar-me, mas não tiver amor, de nada me aproveita.
O amor é longânime e benigno. O amor não é ciumento, não se gaba, não se enfuna, não se comporta indecentemente, não procura os seus próprios interesses, não fica encolerizado. Não leva em conta o dano. Não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade.
Suporta todas as coisas, acredita todas as coisas, espera todas as coisas, persevera em todas as coisas.
 O amor nunca falha.  "- 1 Coríntios 13: 1 -7

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Noticia velha porem frustante

JESUS! - Fã de Restart acaba no hospital após beber galão de tinta: "só queria ficar mais colorido" oO



sábado, 25 de setembro de 2010

Anatomia de Grey

Fonte: http://seriestelevisivas.com
É a tradução brasileira de Grey's Anatomy, seriado americano que estreou nessa última semana nos EUA a sua sétima temporada. Quem acompanha a serie provavelmente deve estar pensando: COMO ASSIM CRISTINA CASOU? COM O OWEN? PQP. Não, não gostei. Mas faz sentido. Pra quem perdeu a última temporada, muitos personagens quase morreram, foi feia a coisa. E quem já passou por um trauma de quase-morte sabe como é. De qualquer forma, grey's é grey's. Também fiquei meio assim com a morte do George, mas no final me surpreendi. Vamos esperar que os autores torne a coisa mais emocionante.

Passando só pra lembrar que EU EXISTO.

Próxima vez faço algo mais produtivo. Beijo.

Memorias de ontem

"Nada melhor que perambular em São Paulo de noite, deparar com o Café center, com uma companhia de tango maravilhoso ao som de Carlos Gardel, sentada observando aquela luz, aquela iluminação sensacional, colocando o papo em dia e com um capucino incrivel e ainda por cima tudo de graça. Simplesmente uma Buenos Aires!!! Indescritivel"

"Mi Buenos Aires Querido "- carlos gardel

Mi Buenos Aires querido,
cuando yo te vuelva a ver,
no habrá más penas ni olvido.
El farolito de la calle en que nací
fue el centinela de mis promesas de amor,
bajo su inquieta lucecita yo la vi
a mi pebeta luminosa como un sol.
Hoy que la suerte quiere que te vuelva a ver,
ciudad porteña de mi único querer,
oigo la queja de un bandoneón,
dentro del pecho pide rienda el corazón.
Mi Buenos Aires, tierra florida
donde mi vida terminaré.
Bajo tu amparo no hay desengaño
vuelan los años, se olvida el dolor.
En caravana los recuerdos pasan
como una estela dulce de emoción,
quiero que sepas que al evocarte
se van las penas del corazón.
Las ventanitas de mis calles de Arrabal,
donde sonríe una muchachita en flor;
quiero de nuevo yo volver a contemplar
aquellos ojos que acarician al mirar.
En la cortada más maleva una canción,
dice su ruego de coraje y de pasión;
una promesa y un suspirar
borró una lágrima de pena aquel cantar.
Mi Buenos Aires querido....
cuando yo te vuelva a ver...
no habrá más penas ni olvido...


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Zagados.

Antes;
Pensava que ao ouvir brigas
deveria cobrir bem os pés,
para ficar protegida
daqueles zangados.
Hoje não protejo só os pés
cubro tambem a cabeça.
Esconder ja resolveu? Não sei.
São brigas internas que não posso cubrir a mente

Priscila F

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Tempos





"Esse tempo cinza, deixa a gente meio retardada
indo para São Paulo, imaginando Paris
São Paulo se adequa a um refúgio que se move ao longo dos tempos."

 Priscila F



Créditos imagem: Ana dias (perfeita imagem)
anacddias.daportfolio.com
br.olhares.com/princessana

terça-feira, 21 de setembro de 2010

La' vida



 Dedicado a ...


Lembro de um dia calmo
Assim como aqueles passados
Tudo era inicio
Passado ...
Tudo foi fim.

Priscila


(oasis - Don't Look Back In Anger)

Muito longe

  


"Para o além e avante"




Deslize por dentro da sua mente perdida
Voce não sabe se póde controlar
ou apenas pensar
Em algum lugar bom de estar
mas voce disse que nunca esteve lá
mas tudo o que pensou ou viu
desapareceu lentamente.

Então começou um começo tudo de novo
Porque voce disse que eu não tenho cerebro
para apenas pensar
nunca viajei por aqueles lugares antes
como viajo agora, na minha mente sem cerebro
sinta pela última vez o vento
que bate em voce quando esta no alto de um arranha-céu
tire esse olhar do teu rosto
não pense, respire
voce me tira do sério, mas jamais vai me afogar de novo

Então apenas me espere
voce sabe que nunca é tarde de mais
enquanto eu caminhei na rua gelada
onde a neve não me poupava
ouvi voce dizer

Me leve para longe daqui
Onde ninguem sabe do tempo
Por favor, não cometa o erro de sair fora
ou de levar sua vida como rock and roll
um dia tudo acaba ou voce se separa

Nunca pense como eu penso
Esqueceu? Voce disse que eu não tenho cerebro
Não pare de me esperar
Ainda não é tarde
vou caminhar na rua novamente, gelada
Chuvosa
depois eu volto para te encontrar
Me espere,
apenas por hoje.

Priscila F

domingo, 12 de setembro de 2010

Corpo e Fotografia

Certa vez a Professora Lucy Figueiredo, mestre em Fotografia pela ECA-USP, graduada em Artes Plásticas, fotógrafa e artista visual, atualmente coordenadora do curso tecnico de fotografia na universidade Anhembi Morumbi, me perguntou o que era fotografia. Não consegui responder a tão inesperada pergunta. Ela me respondeu com um simples: "É a escrita da luz."
“Imagens Polifônicas: Corpo e Fotografia” é a consequência da investigação de mestrado realizada por Lucy Figueiredo, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, baseado num diálogo com várias ciências, esta inquirição para sua pós-graduação se concentrou em fazer um “mapeamento” visual do corpo e suas inter-relações filosóficas.
Ao longo da edição, imagens da autora fazem par com outras pinçadas em torno do tema, extraídas das obras de Joel-Peter Witkin, Marcel Duchamp, Cindy Sherman e Francis Bacon, entre outros. Seus textos são precedidos de extratos de escritos de outros pensadores como Fernando Braune, Jean Baudrillard e Philippe Dubois; ou com citações, extraídas das obras de Roland Barthes, Tadeu Chiarelli, Dominique Baqué, Julia Kristeva , Michel Foucalt, Nelson Brissac, apenas para ficar com alguns grandes nomes.
Dividido em introdução, treze capítulos, mais conclusão, o livro é bem ilustrado, com a boa produção imagética da autora e com exemplos na fotografia e na pintura internacionais, Lucy Figueiredo passeia com propriedade pelo tema ancorada na história da arte, na psicanálise, no cinema, na medicina, na filosofia, na semiótica e em parâmetros estabelecidos pela crítica. A releitura dos procedimentos que envolvem a construção das imagens do corpo, encontra, de início, já sustentação nos ditos de Roland Barthes (1915-1980), quando “toda leitura de uma obra é sempre uma releitura”. Para ela, é necessária uma arqueologia da imagem, através de múltiplas mídias.
Lucy Figueiredo aborda a questão da evolução tecnológica e da velocidade de informação atual que atingem diretamente na identidade do indivíduo. Para ela a construção fotográfica torna-se o adereço necessário para o registro e discernimento de uma sociedade díspar, engendrada pela multiplicidade de meios. O corpo humano, em seu simbolismo evidente, traz o contraponto para um mundo cada vez mais virtual.

O francês Marcel Duchamp (1887-1968), para a autora, é a abertura do conceitual nas artes. Através da lógica de seu traço “sua obra revela-se conceitualmente fotográfica”. A degradação de uma visualidade pura está inscrita em sua produção. Segundo Lucy Figueiredo, os questionamentos em torno das realidades das coisas, estão enunciados em seus procedimentos desconstrutivos.

Um dos exemplos que a autora aplica, reproduz a obra L.H.O.O.Q, de 1919, um dos “readymades” de Duchamp. Uma cópia barata da pintura “Mona Lisa” do italiano Leonardo Da Vinci (1452-1519) , com bigode e cavanhaque. O título, tido como mais uma ironia do artista, significa algo como “Ela é quente lá embaixo”, uma alusão sexual, meio freudiana, baseada na ambiguidade da obra original. Ao trabalhar em cima de um poster barato, a questão da reprodução e transformação infinitas que uma obra pode sofrer também, sem dúvida, aludem ao meio fotográfico pela qual elas são feitas, inclusive neste livro, quando a autora suprime o título que consta da obra.
Interessante também é a abordagem relativa ao trabalho do polêmico americano Joel-Peter Witkin, que esteve no Brasil em 1993, convidado para o primeiro Mês Internacional da Fotografia-NAFOTO. A análise comenta o radicalismo do fotógrafo, quando o mesmo usa como referência obras de pintores famosos. A galeria de personagens estranhos e suas decorrências são referenciadas pela citação de Mikhael Bakhtin (1895-1975), filósofo russo. A obra de Witkin, na visão de Lucy Figueiredo, traz uma espécie de “rebaixamento”. Explica-se, nos termos deste mesmo filósofo, em “ trazer a visualidade das partes baixas, do interdito, do que está relacionado com o sexo, carnalidade, escatologia.”

Como uma tese de mestrado muitas vezes é um ponto de partida, não se extingue em si mesma, uma das melhores particularidades do livro é justamente trazer a tona filósofos como Bakhtin, cujos escritos se concentram na literatura e outros como Jean Baudrillard (1929-2007), cujo pensamento se espalha pela comunicação tecnológica. Não é a toa que o capítulo que trata de Witkin tem o mesmo nome do livro, Imagens Polifônicas.

O pintor escocês Francis Bacon (1909-1992) cuja obra é analisada no capítulo seguinte ao de Witkin, guarda também relações com seu predecessor. Para isso, a autora lança novamente mão de Barthes e seu famoso “Punctum”. Essa palavra feia, para o filósofo e crítico francês, é aquilo “que nos toca, que nos punge, que nos penetra”. Não há dúvida que a obra de Bacon nos suscita uma relação direta com o corpo, tema de todo inventário proposto por Lucy Figueiredo.

Lucy Figueiredo
Um dos livros mais interessantes sobre Francis Bacon, ”Portraits and self-portraits” (Thames &Hudson,1996) já dá uma idéia do artista e de sua relação com o corpo. A desfiguração em seus trabalhos é permanente, e para a autora, Bacon partiu muitas vezes de fotografias, relidas ou apropriadas por ele. Diz ainda Lucy Figueiredo que, segundo Bacon, a fotografia responde à noção de aparência que possuímos atualmente. “Nossa visão de sujeito é formulada por meio da fotografia e dos filmes que vemos e nesse sentido vivemos sob o efeito do choque que essas imagens nos causam”. Outro livro extraordinário na compreensão da obra do pintor e sobre ele mesmo é “Entrevista com Francis Bacon” de David Sylvester. Editado em 1975, foi reeditado pela Cosac Naify em 1995 e em 2007.

Por certo as obras do americano Andrés Serrano, da holandesa Annet Van der Voort e do alemão Rudolf Schafer, fotógrafos que polemicamente trabalharam com cadávares, estenderiam os “diálogos” com Witkin. Assim como as albuminas do greco-italiano Felice Beato (1833-1906) , que registram a morte por crucifixação no Japão, ainda no final do século XIX, se aproximam de obras de Bacon e também do holandês Rembrandt Van Rjin (1606-1669), reproduzidas pela autora. Contudo, o livro não teria cento e poucas páginas, e sim umas quinhentas.

Entre tantos capítulos instigantes, está “Clones e Simulacros” onde a autora faz uma analogia da clonagem realizada pela medicina moderna com as clonagens produzidas pelas interfaces digitais e a manipulação digital. Citando Jean Baudrillard, “De todas as próteses que marcam a história do corpo, o duplo é sem dúvida a mais antiga”. Para Lucy Figueiredo, “Não somente a arte, mas também a vida, se tornou fotográfica”. Como paradigmas da contemporaneidade estão a aparência, a simulação e a encenação que atuam no campo fotográfico.

Pensa a autora que talvez exista uma correlação entre o anonimato do homem e a perda da originalidade decorrente da invenção da câmera fotográfica. Contudo, as sucessivas “obras” que brotam feito erva daninha, oriundas de trabalhos de autores muito ou pouco reconhecidos, a pasteurização do senso estético e crítico, a reprodução nauseante de simulacros da arte, nos fazem pensar na certeza desta suposição levantada.
A imagem latente da fotografia – esse fantasma da imagem- vive a espera de se liberar da inelutável escuridão na qual está mergulhada”. Como fragmento que inicia o último capítulo, não poderia ser mais atual. Os caminhos fotográficos, ligados ou não ao corpo, parecem penar hoje pelas trevas, por um obscurantismo criado pelo distanciamento da filosofia intrínseca à fotografia e das análises de substância. Não é a toa que trabalhos de qualidade não são revelados e pululam os rasos pelas galerias e museus.

A opção pelo imediatismo, pela facilidade da produção de imagens sem conteúdo, se contrapõe às boas reflexões como estas geradas pela autora em suas digressões acertadas e estimulantes. Como ela mesmo escreve, “vivemos o paradoxo da demasia e da rarefação que não deixam de ser faces da mesma moeda, assim como a memória e a amnésia”. Contudo, nos diferentes sons e rítmos deste livro, a imagem fotográfica se projeta para fora de corpo-idéia se expandindo para diferentes labirintos. Tal percurso, sem dúvida, estimulará aqueles que sabem usar a memória, ou pelo menos, tentam.

Imagens Polifônicas: Corpo e Fotografia
Autora: Lucy Figueiredo
Editora Annablume Editora
Isbn-978-85-7419-770-8
www.annablume.com.br

Apenas uma observação

Infelismente eu amo esse cara

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mil Tsurus, Yasunari Kawabata

Publicado em capítulos por revistas japonesas, o romance foi escrito entre os anos 1949 e 1951, período de reconstrução de um Japão devastado pela Segunda Guerra. Nesse contexto em que a sociedade japonesa se reestruturava e também se defrontava com valores culturais vindos do Ocidente, Kawabata resgata valores tradicionais de seu país, fazendo da cerimônia do chá o pano de fundo para a história de Mil tsurus.
Kikuji Mitani é um jovem que, durante uma cerimônia do chá, reencontra duas antigas amantes de seu falecido pai, Chikako Kurimoto e a viúva Ota, e de repente se vê profundamente envolvido com elas. Chikako tenta arrumar um casamento para Kikuji,sendo que o jovem inicia um romance com a senhora Ota, que tem uma filha chamada Fumiko, de quem Kikuji também irá se aproximar. Mas há ainda Yukiko, a jovem pretendente a se casar com Kikuji, personagem que mais representa delicadeza, serenidade e suavidade num ambiente repleto de ressentimentos e dramas. Não é por acaso que a moça é descrita usando um lenço de seda ilustrado com tsurus, ave que simboliza nobreza e felicidade na tradição japonesa.
Kawabata mais uma vez demonstrou, seu profundo conhecimento da antiga cultura de seu país e enaltece a importância da arte oriental, apesar de viver em uma cultura social e mais moderna, descreve perfeitamente o passado. O autor nos mostra o lado efêmero da vida e das relações humanas.
"No Brasil, a obra foi publicada pela primeira vez no início dos anos 70, sob o título Nuvens de pássaros brancos (Ed. Nova Fronteira), emprestando-se o título da edição francesa (Nuée d'oiseaux blancs). Preferimos nos reportar ao título original japonês, Senbazuru correspondendo a Mil tsurus."
"Prêmio Nobel de 1968, Yasunari Kawabata é considerado um dos representantes máximos da literatura japonesa do século XX. Nascido em Osaka em 1899, interessou-se por livros ainda adolescente, principalmente clássicos do Japão, que viriam a ser uma de suas grandes inspirações. Kawabata estudou literatura na Universidade Imperial de Tóquio e foi um dos fundadores da Bungei Jidai, revista literária influenciada pelo movimento modernista ocidental, em particular o surrealismo francês."
"Sua obsessão pelo mundo feminino, sexualidade humana e o tema da morte (presente em sua vida desde cedo, sob a forma da perda sucessiva de todos seus familiares) renderam-lhe antológicas descrições de encontros sensuais, com toques de fantasia, rememoração, inefabilidade do desejo e tragédia pessoal. Desgastado por excesso de compromissos, doente e deprimido, Kawabata suicidou-se em 1972."
 Recomendo! Um tesouro para os estudantes da literatura japonesa. 


Veja a resenha de Cristovão Tezza 
 

sábado, 4 de setembro de 2010

Capitulo 2: Esconde


continuação de: http://nerwensurion.blogspot.com/2010/08/lentes.html


Crescer não é fácil. E por mais que os otimistas digam, crescer também não é somente um estado de espírito. Agente cresce quer o cérebro queira ou não. As limitações chegam, é fato. Há uma semana, Ed passou dos quarenta, vivendo eternamente como um garoto de dezoito anos, sente agora o peso da idade e as conseqüências de suas más escolhas. As suas assíduas bebedeiras lhe proporcionaram um fígado cirrótico, e agora espera por transplante. Descobriu sua doença a menos de duas horas, e já se sente um homem morto. “- Calvície, espelho, lente, e cirrose”. Pensou exatamente nessa ordem, a ordem da sua vida, a ordem de sua evolução, e a ordem de sua morte. Imaginou se haveria alguém em seu enterro... Provavelmente não. Seus filhos o detestavam, sua ex-mulher havia falecido, os seus amigos...Ah os amigos...Quais amigos? Aqueles que ele imaginava que eram amigos, lhe abandonaram há muitos anos, e aqueles quem desprezou, não tinha coragem de admitir seu equivoco. Lembrou de uma amiga a quem por ele havia se apaixonado, mas que por motivos torvos havia se afastado. Pensou em contacta-la. Mas como? Anos haviam se passado... Como?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Spectacle: Elvis Costello


Como poderiamos classificar Elvis Costello? Dono de uma versalidade incrível, como Sting, Costello foi pioneiro no "pub rock britânico", comentado certa vez por um crítico: “Costello, a enciclopédia do pop, pode inventar o passado sob sua própria imagem”. Como classificá-lo? Um homem parecido com Buddy Holly, com seus óculos e sua voz marcante. Não tão radical quanto seus companheiros de cenário: Clash, Pistols, Buzzcocks entre outros punks furiosos, nosso homem tocava em pubs sons pesados do R&B, sua maior "pitada" de fúria. Na minha opinião, classificá-lo seria um erro. Costello é Costello, isso é tudo. Ouçam-no. Devorem-no. Deliciem-se com as notas rasgadas e a pegada punk de My Aim Is True, um de seus discos mais variados, composto de músicas como Alison, ouvida por amantes do rock e por quem odeia o rock. Uma música de aceitação universal. Ouça When I Was Cruel, e prove toda a versalidade de Elvis Costello. Ouça Elvis Costello with Sting (The Police), dois caras que reinventaram a música, ambos dotados de um genialismo impressionante.

Link: http://www.youtube.com/watch?v=b4yXtpB8zds


Aproveitem.