domingo, 12 de setembro de 2010

Corpo e Fotografia

Certa vez a Professora Lucy Figueiredo, mestre em Fotografia pela ECA-USP, graduada em Artes Plásticas, fotógrafa e artista visual, atualmente coordenadora do curso tecnico de fotografia na universidade Anhembi Morumbi, me perguntou o que era fotografia. Não consegui responder a tão inesperada pergunta. Ela me respondeu com um simples: "É a escrita da luz."
“Imagens Polifônicas: Corpo e Fotografia” é a consequência da investigação de mestrado realizada por Lucy Figueiredo, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, baseado num diálogo com várias ciências, esta inquirição para sua pós-graduação se concentrou em fazer um “mapeamento” visual do corpo e suas inter-relações filosóficas.
Ao longo da edição, imagens da autora fazem par com outras pinçadas em torno do tema, extraídas das obras de Joel-Peter Witkin, Marcel Duchamp, Cindy Sherman e Francis Bacon, entre outros. Seus textos são precedidos de extratos de escritos de outros pensadores como Fernando Braune, Jean Baudrillard e Philippe Dubois; ou com citações, extraídas das obras de Roland Barthes, Tadeu Chiarelli, Dominique Baqué, Julia Kristeva , Michel Foucalt, Nelson Brissac, apenas para ficar com alguns grandes nomes.
Dividido em introdução, treze capítulos, mais conclusão, o livro é bem ilustrado, com a boa produção imagética da autora e com exemplos na fotografia e na pintura internacionais, Lucy Figueiredo passeia com propriedade pelo tema ancorada na história da arte, na psicanálise, no cinema, na medicina, na filosofia, na semiótica e em parâmetros estabelecidos pela crítica. A releitura dos procedimentos que envolvem a construção das imagens do corpo, encontra, de início, já sustentação nos ditos de Roland Barthes (1915-1980), quando “toda leitura de uma obra é sempre uma releitura”. Para ela, é necessária uma arqueologia da imagem, através de múltiplas mídias.
Lucy Figueiredo aborda a questão da evolução tecnológica e da velocidade de informação atual que atingem diretamente na identidade do indivíduo. Para ela a construção fotográfica torna-se o adereço necessário para o registro e discernimento de uma sociedade díspar, engendrada pela multiplicidade de meios. O corpo humano, em seu simbolismo evidente, traz o contraponto para um mundo cada vez mais virtual.

O francês Marcel Duchamp (1887-1968), para a autora, é a abertura do conceitual nas artes. Através da lógica de seu traço “sua obra revela-se conceitualmente fotográfica”. A degradação de uma visualidade pura está inscrita em sua produção. Segundo Lucy Figueiredo, os questionamentos em torno das realidades das coisas, estão enunciados em seus procedimentos desconstrutivos.

Um dos exemplos que a autora aplica, reproduz a obra L.H.O.O.Q, de 1919, um dos “readymades” de Duchamp. Uma cópia barata da pintura “Mona Lisa” do italiano Leonardo Da Vinci (1452-1519) , com bigode e cavanhaque. O título, tido como mais uma ironia do artista, significa algo como “Ela é quente lá embaixo”, uma alusão sexual, meio freudiana, baseada na ambiguidade da obra original. Ao trabalhar em cima de um poster barato, a questão da reprodução e transformação infinitas que uma obra pode sofrer também, sem dúvida, aludem ao meio fotográfico pela qual elas são feitas, inclusive neste livro, quando a autora suprime o título que consta da obra.
Interessante também é a abordagem relativa ao trabalho do polêmico americano Joel-Peter Witkin, que esteve no Brasil em 1993, convidado para o primeiro Mês Internacional da Fotografia-NAFOTO. A análise comenta o radicalismo do fotógrafo, quando o mesmo usa como referência obras de pintores famosos. A galeria de personagens estranhos e suas decorrências são referenciadas pela citação de Mikhael Bakhtin (1895-1975), filósofo russo. A obra de Witkin, na visão de Lucy Figueiredo, traz uma espécie de “rebaixamento”. Explica-se, nos termos deste mesmo filósofo, em “ trazer a visualidade das partes baixas, do interdito, do que está relacionado com o sexo, carnalidade, escatologia.”

Como uma tese de mestrado muitas vezes é um ponto de partida, não se extingue em si mesma, uma das melhores particularidades do livro é justamente trazer a tona filósofos como Bakhtin, cujos escritos se concentram na literatura e outros como Jean Baudrillard (1929-2007), cujo pensamento se espalha pela comunicação tecnológica. Não é a toa que o capítulo que trata de Witkin tem o mesmo nome do livro, Imagens Polifônicas.

O pintor escocês Francis Bacon (1909-1992) cuja obra é analisada no capítulo seguinte ao de Witkin, guarda também relações com seu predecessor. Para isso, a autora lança novamente mão de Barthes e seu famoso “Punctum”. Essa palavra feia, para o filósofo e crítico francês, é aquilo “que nos toca, que nos punge, que nos penetra”. Não há dúvida que a obra de Bacon nos suscita uma relação direta com o corpo, tema de todo inventário proposto por Lucy Figueiredo.

Lucy Figueiredo
Um dos livros mais interessantes sobre Francis Bacon, ”Portraits and self-portraits” (Thames &Hudson,1996) já dá uma idéia do artista e de sua relação com o corpo. A desfiguração em seus trabalhos é permanente, e para a autora, Bacon partiu muitas vezes de fotografias, relidas ou apropriadas por ele. Diz ainda Lucy Figueiredo que, segundo Bacon, a fotografia responde à noção de aparência que possuímos atualmente. “Nossa visão de sujeito é formulada por meio da fotografia e dos filmes que vemos e nesse sentido vivemos sob o efeito do choque que essas imagens nos causam”. Outro livro extraordinário na compreensão da obra do pintor e sobre ele mesmo é “Entrevista com Francis Bacon” de David Sylvester. Editado em 1975, foi reeditado pela Cosac Naify em 1995 e em 2007.

Por certo as obras do americano Andrés Serrano, da holandesa Annet Van der Voort e do alemão Rudolf Schafer, fotógrafos que polemicamente trabalharam com cadávares, estenderiam os “diálogos” com Witkin. Assim como as albuminas do greco-italiano Felice Beato (1833-1906) , que registram a morte por crucifixação no Japão, ainda no final do século XIX, se aproximam de obras de Bacon e também do holandês Rembrandt Van Rjin (1606-1669), reproduzidas pela autora. Contudo, o livro não teria cento e poucas páginas, e sim umas quinhentas.

Entre tantos capítulos instigantes, está “Clones e Simulacros” onde a autora faz uma analogia da clonagem realizada pela medicina moderna com as clonagens produzidas pelas interfaces digitais e a manipulação digital. Citando Jean Baudrillard, “De todas as próteses que marcam a história do corpo, o duplo é sem dúvida a mais antiga”. Para Lucy Figueiredo, “Não somente a arte, mas também a vida, se tornou fotográfica”. Como paradigmas da contemporaneidade estão a aparência, a simulação e a encenação que atuam no campo fotográfico.

Pensa a autora que talvez exista uma correlação entre o anonimato do homem e a perda da originalidade decorrente da invenção da câmera fotográfica. Contudo, as sucessivas “obras” que brotam feito erva daninha, oriundas de trabalhos de autores muito ou pouco reconhecidos, a pasteurização do senso estético e crítico, a reprodução nauseante de simulacros da arte, nos fazem pensar na certeza desta suposição levantada.
A imagem latente da fotografia – esse fantasma da imagem- vive a espera de se liberar da inelutável escuridão na qual está mergulhada”. Como fragmento que inicia o último capítulo, não poderia ser mais atual. Os caminhos fotográficos, ligados ou não ao corpo, parecem penar hoje pelas trevas, por um obscurantismo criado pelo distanciamento da filosofia intrínseca à fotografia e das análises de substância. Não é a toa que trabalhos de qualidade não são revelados e pululam os rasos pelas galerias e museus.

A opção pelo imediatismo, pela facilidade da produção de imagens sem conteúdo, se contrapõe às boas reflexões como estas geradas pela autora em suas digressões acertadas e estimulantes. Como ela mesmo escreve, “vivemos o paradoxo da demasia e da rarefação que não deixam de ser faces da mesma moeda, assim como a memória e a amnésia”. Contudo, nos diferentes sons e rítmos deste livro, a imagem fotográfica se projeta para fora de corpo-idéia se expandindo para diferentes labirintos. Tal percurso, sem dúvida, estimulará aqueles que sabem usar a memória, ou pelo menos, tentam.

Imagens Polifônicas: Corpo e Fotografia
Autora: Lucy Figueiredo
Editora Annablume Editora
Isbn-978-85-7419-770-8
www.annablume.com.br

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