sábado, 6 de junho de 2009

"A última estação" de Jay Parini

Parini, Jay, A Última Estação (The Last Station), Editorial Presença, Tradução de Maria de Almeida, 2007.

Jay Parini escreve este “A Última Estação” após uma aturada pesquisa histórica que teve como principal fonte os diários de Lev Tolstói e do círculo de familiares e seguidores que o acompanharam no último ano de vida.
O autor convida-nos a assumir uma postura voyeurista ao partilhar a sua visão de “primeira fila” dos acontecimentos que decorreram nesse ano de 1910. E o leitor segue-o de bom grado ora integrando o grupo de tolstoianos mais próximos do maior autor russo do seu tempo, ora como observador da atitude rígida e persecutória da mulher de Tolstói, Sófia Andréevna.
As duas facções digladiam-se ferozmente e no meio deparamo-nos com um Tolstói ansioso por encontrar a paz absoluta em Iássnaia Poliána, a propriedade e casa da família onde o autor nascera e vivera quase toda a sua vida. Mas Iássnaia Poliana é o palco de sofrimento do velho Conde Tolstói onde Sófia Andréevna não o poupa, expondo a quem quisesse ouvir o conteúdo dos diários do marido, devastada por um ciúme doentio de Tchertkov, o mais amado dos discípulos de Tolstói. A suspeita das relações existentes entre os dois homens, dilacera-a e a desconfiança face às reais intenções de Tchertkov motiva-a na cruzada de humilhação que empreende contra o marido e na propagação dos seus medos, temendo sobretudo que a proximidade entre os dois homens trouxesse dissabores para a família após a morte de Tolstói e revelação do testamento.

Os últimos anos de vida de Tolstói são marcados por uma perspectiva marcadamente religiosa e social que o autor tenta aplicar à sua vida. Ele não quer ser o Conde Tolstói, mas somente Lev Nikoláevitch. Ele não quer viver rodeado de luxo, nem ceder a impulsos sexuais. Ele não quer conviver sob o jugo opressivo de uma mulher castradora, que lhe retira a paz tão desejada e lhe proíbe visitar e ser visitado pelo seu mais querido amigo. Ele quer fugir. Desaparecer.

Lemos as impressões de Sacha, a filha que vive em Iássnaia Poliána e que ajuda o pai no seu trabalho, sabemos que considera a mãe alguém profundamente teatral e egoísta, encenando achaques e mais tarde tentativas de suicídio para prender o marido na sua prisão dourada; temos acesso aos pensamentos de Bulgákov, o Secretário de Tolstói nesse último ano, reverente admirador do mestre que começa por sentir pena de Sófia Andréevna, mas acaba por pressentir a dimensão da paranóia da companheira de quarenta e oito anos de Tolstói; conhecemos a aversão que Tchertkov tem por Sófia e as suas maquinações para ter acesso ao mestre contornando o controle cerrado de Sófia Andréevna, o legado de Tolstói não seria pertença da família Tolstói mas do povo russo que ele tanto amava; as impressões do Dr. Makovítski, o médico pessoal, a propósito da saúde cada vez mais periclitante de Lev Nikoláevitch, os seus receios que a influência funesta de Sófia se revelasse, no fim, fatal; da própria mulher de Tolstói que manifesta todo o seu amor pelo marido e a necessidade em impedir a todo o custo o golpe que Tchertkov planeia; por fim, sabemos o que o próprio Tolstói pensa sobre este mundo que ameaça desabar sobre si. Urge evitar que o fim sobrevenha sem que encontre a paz.

E assim parte na companhia de Makovítski, com as sombras da noite como silenciosas cúmplices. A sua fragilidade física agudiza-se durante a fuga e atinge o auge ao chegarem à estação de Astápovo, a última estação, a última paragem antes da morte de Lev Nikoláevitch. Sacha pressente-o antes de todos ao dizer que parecia que tinham chegado ao fim do mundo. Era realmente o desfecho da busca aventurosa de liberdade neste mundo. Aproximava-se a maior aventura de todas e Tolstói acolheu-a com um sorriso nos lábios.

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