sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Paregórico como deve ser

Nada como começar um dia tomando calmantes. Paregórico como deve ser. Você acorda, quer jogar a toalha. É quando finalmente nota que a toalha está no chão, e Deus sabe a quanto tempo está lá. Se olha no espelho, um rosto velho que não pertence a você. Ou não deveria pertencer. O calmante ajuda, você sorri para si mesmo e pensa que hoje vai ser diferente de ontem, e de todos os outros dias miséraveis de sua vidinha. Besteira. Mas o calmante realmente ajuda. Se veste com o primeiro trapo, cheira, ele fede, mas o outro está pior. Veste esse mesmo. Debaixo do braço, uma pasta preta e velha, cheio de currículos. Neles, informações inúteis sobre quem você realmente não é. Ninguém coloca que é um fudido e que odeia trabalhar tanto quanto odeia aqueles seus vizinhos que insistem em te cumprimentar. Mas você sorri, todos os dias. Efeitos do calmante? Talvez. Cá entre nós, eu sei que é da heroína. E você sorri. Depois de um longo dia, você chega em casa, vazio. Alma e estômago. E o efeito do calmante vai passando e é cada vez menor. O espelho ri do que você se tornou. A toalha continua no chão e você não tem a menor intenção de pegá-la. Coloca um som, guitarras cruas, e se entope de heróina. Amanhã é outro dia. Não há nada como começar um dia tomando calmantes. Paregórico como deve ser.

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