quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Lembranças do velho

Capitulo VIII -  Velho Malandro

No dia seguinte e de castigo, fiquei debilitadamente no quarto, nada vinha-me a cabeça. Então veio-me a brilhante ideia de agir como um menino, pular a janela era fácil, ja subir era uma grande tarefa, mas nada que ja tinha observado, pular a janela como todo menino que se preze para escapar ileso de um castigo.  Fui novamente na casa do velho homem que vendia suas bugigangas. Vi o livro que queria, aquele mesmo que anteriormente comentei. Peguei algumas moedas no bolso e dei em troca do livro, para este pobre qualquer coisa era lucro.
Finalmente poderia contentar-me com algo para ler enquanto estivesse de castigo.
Subi pelo poste de luz, passei entre uma árvore e pulei novamente para o quarto. Quando finalmente sentei e relaxei, orando para que ninguem tenha visto, foi quando escutei altos toques na porta, papai atendeu, em breve um sonoro "Frederico", desci pulando.

- É esse quem procura - Disse papai.
- Este rapaz pegou meu livro. - Disse o velho, isso mesmo meu caro, o velho das bugigangas.
- O que? - sem entender perguntei - Que livro falas
- Daquele que me tomaste! - exclamou o velho
- Explique-se Frederico? - Quando papai ficava furioso, seu rosto refletia um tomate.
- Não sei de que se trata, como explicarei - Respondi.
- Não faça-se de tolo, pegaste meu livro agora, ladranzinho?
- Não dei-lhe dinheiro?
- Então confessa que pegou o livro - Disse papai -Que livro é esse e como pegou se estava de castigo no quarto.
- Acho que não presta a devida atenção a seu filho.
- Meu senhor...
- Devolva pois tenho mais o que fazer, ou entregarei-os a policia por roubo.
- Frederico vá buscar o livro.
- Mas pai... - bruscamente interrompido.
- Explique-se depois.

Subi as escadas correndo peguei o maldito livro e ouvi a amargura de papai.
- Por onde saiu?
- Pela janela.
- Além de desobedecer-me ainda rouba um livro.
- Mas meu pai, não o roubei.
- Estes são os modo como te educam. - Agora papai culpava minha mãe e familia como sempre
- É este mesmo, obrigado - Sarcasticamente disse o velho - Mas olhe como esta razurado, não aceitarei de volta, quero  o custo.
- O que? - Disse papai
- O que ? - Perguntei - Acabei de pagar-te.
- Roubo não é pagamento. - Ironico como sempre, respondeu.
Indignado papai deu-lhe dinheiro até mais o que valia cujo livro velho.

O velho retirou-se, enquanto papai fechava a porta.

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Capitulo IX - De  Silêncio daquele inesperado.

Na porta da casa de mamãe estava eu calado com o rosto embrulhado e olhos fundos.

- Frederico olha o que pensa teu pai da educação que lhe damos.
Não respondi, apenas fiquei calado, esperando que ela tambem ficasse, infelizmente não foi bem o que aconteceu.

Novamente de castigo, agora sendo vigiado por João passei apenas a estudar.
Passava-se os dias e meu francês refinava-se espontaneamente, apesar de meu pouco intusiasmo a aprender.
Proibido de falar uma só frase de desespero, decorando o que me impunham, longo são os dias.
Senti a falta da companhia de minha amada amiga, "por onde andava tamanha formosura?" - Perguntava-me e se bem que hoje ainda pergunto.
- Frederico, pode descançar um pouco, pois teu pai acabou de comunicar a sua mãe que quer falar com você.
Não expressei emoção, nem mesmo no oculto, já poderia saber o que era, novamente a proposta de mandar-me estudar nos quintos, conforme tinham comentado.
Ao menos pude levantar-me e esticar as pernas, pois quantas semanas fiquei sentado sobre uma cadeira estudando e escutando a voz de João.
Refrigerei-me no bom ar do jardim dos fundos. Observei a luz e os passáros que cantarolavam desesperadamente em algum lugar onde não podia ve-los. Enfim era uma sensação momentânea.
Encostei, fechei os olhos tentando relaxar, mas logo fui novamente atordoado. Mãos macias, tapavam-me os olhos, pensei que fosse mamãe, mas deparei-me com algo melhor de característica reforçada em minha mente.
- O que foi Catarina?
- Vi que voce estava aqui. - Disse ela sorridente.
- Como passa, por quanto tempo não a vejo para o meu padecer. - Encantado, apenas delirei.
- Ando bem - Ela virou-se ligeiramente olhando de lado para mim.
Cabelo preso como por um laço rosa, deixando-a ainda mais bela..
- Quando poderemos conversar novamente, Frederico? Ou foges de mim.
- Como pode falar isso. Como fugir? Se es contigo com quem quero estar.
- Voce vai voltar para a Europa?
- Não sei.
- Ouvi tua mãe dizer que o mandaria novamente para lá estudar. - Com um olhar estranho, comentou.
- Onde ouviu isso?
- Quando ela conversava com tua tia.
-Já falei sobre isso com ela, parace que me querem longe.
- Parece mesmo. Querem que voce vá embora.
- Pois bem, não irei.
- Nada o impediria.
- infelizmente tenho um impedimento.

Catarina sua avó lhe chama, não ouviu?
- Ouvi sim - Disse ela - Até breve - Findou
- Espere...

Foi-se em segundos.
Minha mente conturbada  me fazia lembrar de tudo em minha vida, aos olhos parecia-me muito aziago, pois sabemos que a história vem sendo narrada conforme os acontecimentos e vejo que toda a desgraça que me aconteceu vem sendo feita minha história, pois o que é a vida, senão desgraça.
Renunciei a tudo, confesso que me senti como um eco, um eco no fundo de um corredor vasto vazio, apesar de mais extrovertido que antes continuava taciturno perante as sensações que me vinham prontamente.
Pois bem, as horas fluiam uma a uma, as sombras assombrosas que surgiam nos corredores do jardim, faziam ficar-me temeroso, estava tudo perfeitamente iluminado, pretendia passar mais algumas horas ali, por fim, duradouro.
Amigos, ninguem me visitava, recomendei-me mentalmente  que me deixassem só, pois meu estado ladrão talvez assustava teus pais, para que más companhias, pensei; virei má companhia, pós atos de liberdade.

- Frederico, vai tua mãe o chama. - Como pensava, em questão de milésimos vem desgraças.

Percorri os corredores silenciosos, onde a luz do sol refletia entre as flores rosadas no jardim.
Ao fim, passava ali catarina e sua tia.
Contava meus passos vagarosamente, porém atrasando-me de chegar até minha mae. Contava as colunas dos corredores, as cores das flores, embriagava-me em lembranças dos cachos negros de catarina, de seu toque aos meus olhos, de sua suavidade de moça.
Ao fim do corredor, ninguem, apenas mais trinta passos da sala, onde estaria mamãe.
Um passo. Mas uma vez inesperada.
- Frederico - sussurrou Catarina aos meus ouvidos.
Estremeci apenas.
- Não vá sem despedir-se. - Disse ela onde ligeiramente apoiou-se em meus ombros e beijou-me a face.

Veio derrepente entre alguns momentos, sem palavras, sem ações e um instante para isso é muito pouco
Um gesto, por um simples gesto de ternura, mas espelhando compaixão por mim, dava-me um caloroso olhar entre minhas entranhas, com aqueles olhos de deusas, embora uma reclinada ironia no decorrer de teu apaixonante olhar. Nada lhe possa falar sem a ilustração de teus encantos. Nada lhe posso falar deste gesto tao amável...amigavel.

Perplexo, não á outra palavra. Perplexo.

-Frederico! - Um sonoro som, vinha da sala, onde mamãe observa-me parada, quieta, com o rosto vermelho, como pimenta. - o que foi que fez?
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http://nerwensurion.blogspot.com/2009/07/lembrancas-do-velho.html  (parte 2)
http://nerwensurion.blogspot.com/2009/06/conto.html   (Parte 1)

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